Culturas de bairro: a senhora Deolinda e o dono da Papelaria Zezinha

Sempre achei que a cultura de bairro, de comunidade, de aldeia ou outra microcomunidade de que tipo for, tem muito mais vantagens do que desvantagens. No entanto, com o advento das novas tecnologias, que pontenciaram o self-communication, a tendência destas culturas foi para que fossem desaparecendo ou, pelo menos, diminuissem a sua intensidade e a sua força nos locais onde estão ou estavam implementados.

A senhora Deolinda não sabe que a chamo assim: Deolinda. Na realidade, não sei o verdadeiro nome da mulher que tem uma pequena mercearia em Santa Engrácia, freguesia lisboeta onde moro há uns meses. No entanto, a senhora Deolinda e o marido têm um profundo conhecimento daquilo que não se encontra em estabelecimentos comerciais gigantescos, onde perdemos grande parte da identidade ao entrar no local: sabem o que o cliente quer. Mesmo que muitas vezes o sorriso ou a simpatia andem longe, a verdade é que desde que frequento aquela pequena mercearia já assisti a verdadeiras manifestações de cultura de bairro: a idosa que ali passa para falar, falar, falar; o senhor que quer levar pescada para a mãe mas teme não ter dinheiro ali à mão (diz a senhora Deolinda que “depois paga”); e vi, igualmente, a ser dado literalmente um par de pães a um indigente que provavelmente nem teve mais que comer naquele dia. Justificação do marido da senhora Deolinda para esse acto cristão: “não sei se um dia também não virei a precisar”.

Perto da mercearia da senhora Deolinda, fica a papelaria Zezinha. Mais uma vez, não sei o nome do dono, mas, reparei agora, também nunca tentei adivinhar: é apenas o senhor da papelaria Zezinha. A Zezinha é um pequeno espaço onde se pode comprar os jornais e revistas da nossa praça – pelo menos os mais conhecidos -, mas que tem ainda quatro grandes funções: pode-se comprar o passe da Carris, assim como carregar bilhetes através do zapping; em troca de 1, 20 euros à hora, é possível usar um computador com internet; pode-se tirar fotocópias; e, por fim, é possível comprar filmes para adultos, o que me leva a pensar que deverá existir uma clientela especial para este tipo de produtos…

Convém dizer que tudo isto cabe num espaço exíguo, onde a madeira castanha escura das prateleiras e dos balcões confere ao local uma aura de mistério, ainda para mais se repararmos que a única luz que brota naquele espaço provém de uma janela na fachada da casa, e de uma outra janela, localizada no fundo da loja, mas que está limitada por uma parede com porta, estrategicamente colocada para separar os clientes de olharem para aquilo que imagino ser o “gabinete de contabilidade”. Julgo que deve ser aí que se encontra o computador com a ligação à internet, para onde irão os consumidores à procura de novas comunidades…

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